domingo, 6 de maio de 2007

O Encontro

Na ponte

Ando, e o vento me empurra, sem jeito, para frente. Se infla qualquer parte de minha roupa que não esteja suficientemente encostada em minha pele. As bocas largas da minha calça mais lembram velas de barco. É como se o universo conspirasse para eu chegar lá. Eu precisava encontrá-lO, precisava senti-lO com meus dedos. Desde 9 de abril o aguardo. Só agora teríamos nosso momento.

No ponto (de encontro)

Passo por prateleiras cheias de pessoas e livros anônimos. Nada poderia me interessar verdadeiramente. Só e pensar que Ele me aguardava logo ali, na sessão de reservas...

Agora é meu. Três mil anos de história. Sinais a serem lidos, relidos, saboreados, engolidos, absorvidos até a última sílaba, até que também essa história faça parte das minhas entranhas e sustente minha pouca carne e preencha com poesia cada vazio de que sou feita.

Na ponta (do iceberg)

Mas e quando acabarem as 1084 páginas? Serei, outra vez, vácuo moldado por despedidas, ausências, pelo que foi e não é mais. Até quando?

Foi mais esperto Fausto.

"Se vier um dia em que o momento
Disser: Oh! pára! és tão formoso!
Então algema-me de contento,
Então pereço venturoso!
Repique o sino derradeiro,
A teu serviço ponhas fim,
Pare a hora então, caia o ponteiro,
O Tempo acabe para mim!"

Fausto queria sair do seu quarto gótico e sufocante. Mas, depois que ele encontrasse O Momento, o que lhe restaria? Saudade. Dor da perda. Um retorno ao quarto gótico. Uma vida medíocre e estressante, 3 horas por dia em ônibus, noites mal dormidas, assaltos e problemas de saúde.

Passando novamente pela ponte, na volta da Livraria, o vento já não está a meu favor. Minha teimosia permite que eu ande. E um não-sei-o-quê permite que eu ria.

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