O bar do recital não tinha esse aspecto, mas era aconchegante e pequeno. Com fotografias amareladas pela parede, parecia, como tudo em Antuérpia, o registro de um tempo que já não existe, como a teimosia de alguém que ousou parar enquanto o tempo corria. Sentamos em mesas altas, compondo o cenário do pequeno público presente. Brindamos com mais cervejas belgas e esperamos o recital.
Se você ainda lembra, todos aqui falam holandês. É isso: o recital será em holandês. Nada me parecia mais insólito e divertido. Eu teria que me ater à completa sonoridade da poesia, esquecendo qualquer sentido que pudesse haver nas palavras. Será música. Música e dança, que nenhum declamador se expressa só pelo tom de voz. Eu estava ansiosa para ver seus gestos e movimentos.
Mas o primeiro declamador está com um livro de Fernando Pessoa na mão e eu reconheci o desenho do autor mesmo à distância. “This one I know”, disse. E foi o suficiente para que, em pouco tempo, todos no lugar soubessem que estavam ali falantes de português. Dali para eu subir no palco e declamar Pessoa foi um salto – e um assalto à minha enorme timidez. De repente, eu estava lá, embaixadora de uma língua, representante de uma Lusitânia que eu odiava e que, ao mesmo tempo, faz tanto parte de mim. Não tinha como não ser lindo. Não tinha como não ser aquilo, poesia.
O poema já tinha sido escolhido pelo declamador belga. Como o seu Pessoa era bilíngue, faríamos assim: eu leria o poeminha primeiro, em português, e ele depois, em holandês. Ao abrir o livro, a surpresa: eram os versos que Rafael, meses atrás, escrevera para mim, na minha despedida do Brasil. “Sê todo em cada coisa”. E me tomou uma vontade de sorrir. Eu me lembrei daquela despedida, das minhas últimas 24 horas no Brasil, daqueles amigos queridos que estavam comigo, de toda a saudade que me toma agora outra vez, quando lembro dessas coisas – agora uma saudade trocada, uma saudade da saudade que eu senti.
Peguei o microfone e declamei, como se a minha vida dependesse daqueles versos – e dependia. Ninguém me entendeu, além de Paula, claro – mas eu, no momento, não sabia se ela me entendia mesmo em alguma coisa, tão diferentes que somos – o que eu só descobri depois daquela viagem. Ninguém me entendia, mas eu olhava para cada um ali enquanto falava, olhava para o livro e olhava para as pessoas, seus olhos, sua curiosidade, sua admiração pelo belo no desconhecido. E no final, me aplaudiram, aplaudiram um idioma que eles não sabem, aplaudiram palavras que não fazem sentido. Mas era Pessoa, e era uma pessoa que os entregava Pessoa sem tradutores.
“I was very shy, wasn’t I?”, perguntei, já de volta à mesa. “No. You were very authentic”, foi o que Remi respondeu. Ironia brutal, a minha pátria foi a língua portuguesa – a língua portuguesa em Antuérpia e com cheiro de cerveja belga.

Nenhum comentário:
Postar um comentário