sábado, 14 de julho de 2007

Antiquário II

Mais um texto antigo. Não sei exatamente a data, mas eu fazia segundo período na Faculdade... Esse texto estava perdido dentro do livro da Marilena Chauí, Convite à Filosofia.

----------------------------
Oh, pedaço de mim! Oh, metade arrancada de mim!

Escrever
vem do latim escriere, que tem a mesma raiz etimológica de nascer. Escrever, nascer. Não! Vem do grego scriptum, que nos remete a cripta. Cripta revelada, ex-cripta, escrita.
Vem da alma, surge na cabeça, corre em segundos por meus nervos, deixa minha mão impaciente e o papel menos branco e mais vivo. Escrever é como dar à luz um filho. Minha cabeça lateja, quer expulsar do cérebro, o útero das idéias, aquele pensamento que perturba. Veias pulsam, coração palpita: no momento derradeiro, eu sinto as dores do parto: é um pedaço de mim que já não é meu, um outro eu. E enquanto o lápis não desgruda do papel, o cordão umbilical une mãe e filho, criadora e criatura, dois eus ocupando o memo lugar no espaço. Que belo rebento! Quantas alegrias e desgostos ele pode me dar? Por quais caminhos esse outro-eu vai passar antes de morrer, esquecido no fundo da gaveta de um criado mudo, sempre mudo?
Na verdade, parir um texto é como parir um semi-Deus. Ele tem, em sim, flores do eterno, sementes de imortalidade... Mas é também tão frágil! Ele precisa de atenção! Só vive enquanto o escrevo ou quando alguém voltar para ele seus olhos e dedicação. A idéia imortal está no meu filho, mas meu guri precisa do efêmero pra nascer, precisa de um papel que se desmancha com a água, precisa das minhas mãos pra ganhar o mundo, precisa de olhos atentos e perecíveis do outro para voar em diração ao infinito.
Na minha cabeça, meu texto não é texto: é o infinito entre quatro paredes, águia engaiolada. É avistar o horionte dentro de uma cela, o tudononada. Zeus abriu a cabeça pra Atena poder sair... Era isso o que eu queria para minhas idéias, soltá-las de amarras, dá-las vida própria. Mas não: tirá-las do cérebro é prendê-las a outras algemas. A voz morre se não tiver ouvidos que a ouçam. O papel se esfarela, dissolve-se em pouco tempo, levando igualmente as idéias para o nada.
Pobre do meu filho, meu texto, a vagar sem destino por um mundo cruelmente passageiro.

5 comentários:

asadebaratatorta disse...

lindo texto, déa ;D

consegue ser fiel ao sentimento de quem escreve. ^^ talvez seja mesmo uma concepção, embora fique sempre a dúvida: eu sou o texto, ou o texto sou eu? ^^


;*

asadebaratatorta disse...

valeu pelo post! ^^

Rafael Sotero disse...

para os tecnófilos de hoje em dia, uma tela em branco não é tão assustador (a não ser quando se trata de problemas). Pois qualquer problema de falta de criatividade pode ser resolvido com google, winamp, wikipedia e por ai...

aiai, poesia máxima da tecnologia sem poesia... tenho que parar de escrever depois da meia-noite! =P

Rafael Sotero disse...

Na verdade, sabemos melhor do que ninguém o sabor e o valor do nada e do silêncio. São anos de prática interativa com ambos via net, este grande deserto de areia chamada byte.

E o que o google faz é facilitar a vida de quem trabalha em redações. Acho engraçado ver os olhares dos mais velhos dizendo: "No meu tempo não era assim. Era mais divertido perder tempo". haha, mas nada é perfeito.

Por sinal, pode responder por aqui mesmo os comentários. Fica estranho ter um comentário que é a resposta de outro num post quase não relativo com a resposta. Por sinal, vc deveria ler Dorian Gray, é tão baum. =)
Sciao ae!

Andréa disse...

É pra ter certeza q vc vai ler! =DDD E eu já li Dorian Gray - ainda q fosse numa vagabunda tradução de bolso! Conta? Rsrsrsrsrs!